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quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Maia recebe relatório sobre violência contra índios guarani-kaiowá

O presidente da Câmara, Marco Maia, recebeu, nesta quarta-feira, o relatório da comissão externa criada para verificar a situação de violência contra os índios guarani-kaiowá no Mato Grosso do Sul.
Integrantes da comissão estiveram no local no início do mês e relataram as situações de racismo, confinamento, desnutrição e precárias condições de vida a que são submetidos os indígenas por conta de disputas de terras naquele estado.
O parecer da comissão externa sugere uma série de medidas para reverter o cenário, como a criação de um instrumento legal para indenizar os proprietários de terra afetados pela demarcação das terras dos guarani-kaiowá, a votação do projeto do Estatuto do Índio e do que trata da criação do Conselho Nacional de Política Indigenista.
Reação dos indígenas
A omissão do Estado e a ajuda de fóruns internacionais foram ressaltadas por Rosane Kaigang, uma das coordenadoras da Articulação dos Povos Indígenas Brasileiros. Ela também participou da audiência com o presidente da Câmara. "Toda semana tem mortes, nós somos criminalizados na luta pela terra. Nós temos o Estado brasileiro - os poderes Legislativo, Executivo e Judiciário - desfavoráveis a nós. Não podemos aceitar mais isso de forma tranquila, porque já estamos sofrendo há muito tempo. E nós vamos levar à Corte Internacional, ao Tribunal de Haia."
Segundo a deputada Érika Kokay (PT-DF), a situação é realmente crítica. "Nós vimos agrotóxicos sendo derramados em cima de crianças, de mulheres, de aldeias. Na verdade, a água está sendo contaminada. O que vimos no Mato Grosso do Sul não cabe dentro de estado democrático de direito, por isso é fundamental que tenhamos uma posição do governo federal".
O deputado Padre Ton (PT-RO) concorda que uma audiência com a presidente Dilma Rousseff é urgente neste momento. "A realidade deles só será resolvida com uma ação direta da presidente Dilma Rousseff. Ela precisa se manifestar porque é o Estado brasileiro que está em dívida com este povo. Eles estão sendo dizimados, massacrados e logo o Brasil pode ser condenado pelas cortes internacionais."
Medidas drásticas 
O deputado Domingos Dutra (PT-MA) destacou que a demarcação das terras dos 50 mil índios do Mato Grosso do Sul representa menos de 2% do território do estado. Dutra manifestou apoio à adoção de medidas drásticas para chamar a atenção para o problema.
"Eles já se cansaram de morrer e decidiram: se é para morrer à míngua, na periferia, vamos morrer lutando pelo território. Eu acho que se morrer mais um guarani é mais do que procedente que o corpo seja trazido para cá, para a Praça dos Três Poderes, para ver se a presidenta (Dilma) acorda, para ver se acordam o presidente do Senado e todos os deputados e senadores e ministros do Supremo."
Reportagem – Idhelene Macedo/Rádio Câmara 
Edição – Regina Céli Assumpção

A reprodução das notícias é autorizada desde que contenha a assinatura 'Agência Câmara de Notícias'

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Polícia Federal indiciou dez suspeitos de ataque a acampamento indígena em MS

Fazendeiros teriam contratado seguranças para retirar os índios, diz PF. Inquérito sobre o caso será concluido nesta quinta-feira (22), diz polícia.
Tatiane Queiroz do G1 MS
A Polícia Federal (PF) indiciou 10 pessoas suspeitas de envolvimento no ataque ao acampamento indígena Guaviry, da etnia guarany-kaiwá, ocorrido no dia 18 de novembro. Em nota divulgada pela assessoria de imprensa, a PF informou que o inquérito sobre o caso será concluído nesta quinta-feira (22).
Segundo informações do Ministério Público Estadual (MPE), havia cerca de 30 indígenas no acampamento, localizado próximo a fronteira com o Paraguai, no momento da invasão. Os indígenas afirmam que aproximadamente 20 homens chegaram ao local em caminhonetes. Eles teriam atiradocom armas de balas de borracha. Três pessoas foram atingidas. O cacique Nísio Gomes, de 59 anos, desapareceu e os índios afirmam que ele foi levado pelos invasores.
As investigações da Polícia Federal apontaram que fazendeiros da região teriam contratadoseguranças de uma empresa privada de segurança para retirar os índios do local. Quatro pecuaristas, um advogado, dois administradores da empresa de segurança e outras três pessoas foram indiciados por lesão corporal, formação de quadrilha e porte ilegal de arma de fogo. Três integrantes do grupo de agressores chegaram a ser presos, mas foram soltos no decorrer do inquérito.

Local onde fica o acampamento indígena alvo de suposto ataque (Foto: Arte/G1)
Desaparecimento
Policiais encontraram vestígios de sangue do cacique no acampamento. Segundo a PF, a compatibilidade foi confirmada por laudo pericial. Para a polícia, esses indícios não comprovam a morte de Gomes. A quantidade do material encontrado foi pouca, o que significa que o ferimento provocado pelos tiros não seria suficiente para matar o cacique.
“Até o presente momento, a PF o considera desaparecido, até mesmo porque restam mais evidências de que ele esteja vivo do que morto”, enfatizou o órgão em nota divulgada pela assessoria de imprensa.
Enviada por Pablo Camargo para a lista do Cedefes.

Comissão entra com representação no MPF sobre ataque aos indígenas isolados no Maranhão

Igor Almeida(SMDH),Meire Diniz(CIMI), Pedrosa(CDH-OAB) Comissão que fez a investigação na TI Araribóia
Na medida em que está comprovada a ilegítima alegação de mero boato envolvendo ataque aos indígenas Awá-Guajá isolados da Terra Indígena Araribóia, município de Arame, no Maranhão, o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) se pronuncia em interface\ou mediante a representação pública impetrada junto ao Ministério Público Federal do Maranhão (MPF/MA) nesta sexta-feira (20). 
O conteúdo da representação se sustenta com base no levantamento in loco realizado por uma Comissão, composta por representantes do Cimi, Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e a Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH), que esteve no local onde a violência ocorreu. A comissão percorreu cerca de 20 quilômetros, partindo da aldeia Vargem Grande, TI Araribóia, até o local da denúncia do ataque contra os Awá-Guajá.
Foram seis horas de caminhada sob mata fechada e riscos iminentes de encontros indesejados com madeireiros. A tensão dos integrantes da comissão se acirrava a cada árvore marcada para o abate, estrada clandestina aberta para a passagem dos caminhões e tratores, clareiras de desmatamento, pilhas de toras esperando a remoção para a cidade e um acampamento madeireiro em estágio avançado de construção.
Da mesma forma em que os sinais da ação escancarada dos madeireiros estavam por todos os lados, vestígios da presença dos Awá-Guajá isolados também eram facilmente identificáveis na área – em parte dividida com os Tenetehara (ou Guajajara), autores da denúncia do ataque, que a usam para caçadas. No entanto, a marca mais impactante da presença dos Awá-Guajá encontra-se na constatação de que no local existia um acampamento dos indígenas com grande abundância de árvores com colméias 
Indícios da presença dos isolados. Ali eles estavam para a coleta do mel silvestre, prática tradicional realizada no período entre agosto e novembro, tempo de estiagem ou sem chuva. O acampamento foi destruído por tratores madeireiros, conforme sinais deixados pela esteira da máquina e clareira de desmatamento, onde quatro famílias viviam, de acordo com os vestígios das fogueiras encontradas no local.
Causou espanto o relatório emitido por três servidores da Fundação Nacional do Índio (Funai), que atuam na sede do órgão em Imperatriz (MA). Em verdade, espanto e repulsa por trabalho tão mal feito e incompetente. Os servidores não chegaram a ir ao local dos fatos, tal como fez a comissão, tampouco autuaram motorista de caminhão que flagrado retirava madeira da terra indígena – crime federal. Segundo a comissão pôde apurar junto aos indígenas, os servidores da Frente de Proteção de Indígenas Isolados esteve no local no mês de abril do ano passado e nunca mais voltaram lá. 
Diante de tal descaso, ficam duas perguntas a serem respondidas: a Funai Maranhão tem condições de continuar prestando trabalhos que visem o esclarecimento desse fato? Porque outros servidores do órgão foram enviados à região e não os responsáveis pela Frente de Proteção Etnoambiental Awá-Guajá, que até agora não se pronunciou sobre o caso? 
Mentiram: disseram que nenhuma denúncia do ataque fora feita em novembro de 2011. A direção da Funai, em Brasília (DF), admitiu ter recebido uma denúncia anônima no mês de novembro, mais não esteve no local. Nessa feita, tratou logo de desqualificar o relatório dos servidores do órgão no Maranhão, se comprometendo a aprofundar as investigações sobre o crime, em parceria com a Polícia Federal.
Mais uma vez a Funai não compareceu à reunião no MPF, cabe lembrar que o horário da reunião desta sexta-feira (20) foi alterada para a parte da manhã porque a Funai de Brasília confirmou que mandaria um representante. O delegado da Polícia Federal, presente na reunião, informou que até o momento nenhum pedido ou material foi entregue pelo órgão oficial para que a polícia possa agir. 
Esse fato não pode ficar impune, tampouco a culpa não pode recair sobre os indígenas. É necessário que haja uma investigação e que se aponte quem são esses madeireiros que exploram há anos os territórios indígenas no estado, responsáveis por um rastro de destruição e violência contra esses povos. Como eles conseguem continuar a agir impunemente no Maranhão? O governo federal pode mesmo se contrapor a esses criminosos, aparentemente tão poderosos no estado do Maranhão? 
A nós e ao conjunto sociedade brasileira cabe cobrar providências para que este caso não fique impune. Reafirmar que foi uma agressão sobre um povo que vive isolado e que merece todo nosso respeito e atenção - não serem expulsos ou afugentados do seu habitat natural por conta de uma prática ilegal e um crime ambiental. Episódios como esse tiram a paz e a segurança física e cultural dos povos indígenas, ameaçando de extinção um dos últimos povos nômades do Brasil.
Conselho Indigenista Missionário
Brasília, 20 de janeiro de 2012

SMDH, CIMI/MA e OAB/MA constatam crimes na Terra Indígena Araribóia

Missão empreendida pelas entidades constatou extração ilegal de madeira e violência contra indígenas; aprofundamento das investigações será solicitado às autoridades competentes
POR ZEMA RIBEIRO
ASSESSOR DE COMUNICAÇÃO DA SMDH
Uma comissão formada por representantes da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH), Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional Maranhão (OAB/MA) e Conselho Indigenista Missionário – Regional Maranhão (CIMI/MA) realizou visita à Terra Indígena Araribóia, no município de Arame/MA, palco de diversas denúncias veiculadas nos meios de comunicação e redes sociais ao longo dos últimos dias.
Igor Almeida (SMDH), Rosimeiry Diniz (CIMI/MA e Luis Antonio Câmara Pedrosa (OAB/MA) durante coletiva na manhã de hoje (13)
Os advogados Igor Almeida e Luis Antonio Câmara Pedrosa, da SMDH e OAB/MA, respectivamente, e a coordenadora Rosimeiry Diniz, do CIMI/MA concederam, na manhã desta sexta-feira (13), entrevista coletiva, na sede da OAB/MA, em que relataram a missão realizada. Os três apresentaram fotografias e vídeos captados durante a visita.
Os representantes das entidades justificaram a missão pela repercussão causada, sobretudo na internet, da denúncia do suposto assassinato de uma criança indígena, em outubro do ano passado. De acordo com informações, a mesma teria sido queimada viva por madeireiros que praticam a extração ilegal na região.
“Trouxemos vasto material fotográfico que colhemos e a localização dos pontos de extração ilegal de madeira aferidos por GPS, o que facilitará sobremaneira o trabalho de diversos órgãos em investigações futuras”, afirmou Igor Almeida.
“Não há como comprovar o assassinato nem houve como localizar o corpo, embora tenhamos tentado. As autoridades precisam cumprir o papel de investigar, pois além desses indícios, há uma ação criminosa sistemática na região; estas fotografias atestam a violenta derrubada da floresta e isso não pode ser negado por nenhum relatório da Funai”, informou Luis Antonio Câmara Pedrosa.




Árvores derrubadas e acampamento de madeireiros abandonado foram encontrados por missão
O advogado referia-se ao relatório e nota de esclarecimento expedidos pela Regional de Imperatriz/MA da Funai, que destacou três técnicos à TI Araribóia após a divulgação do suposto assassinato em redes sociais.
As fotografias trazidas pela missão do CIMI/MA, OAB/MA e SMDH apontam a derrubada de espécies centenárias – sapucaias, ipês, copaíbas e jatobás, entre outras – e a destruição de acampamentos Awá-Guajá, povo nômade em extinção, que vive da caça e coleta e que tem nas matas de Araribóia um de seus últimos refúgios.




Missão encontrou toras "abandonadas" para posterior carregamento
Na opinião de Rosimeiry Diniz, do CIMI/MA, “a repercussão dos fatos retirou os madeireiros temporariamente da área”. A missão encontrou vestígios da ação dos madeireiros na terra indígena: toras de árvores deixadas ao longo de picadas que se abrem, árvores marcadas (para serem posteriormente derrubadas) e acampamentos indígenas incendiados – em ao menos quatro pontos.
“O que se assiste é o início do genocídio do grupo Awá por grupos que operam ilegal e impunemente na região, sem nenhuma fiscalização”, apontou Pedrosa. Ainda de acordo com o advogado, a forma como os acampamentos foram incendiados indica bastante hostilidade em relação àquela etnia. “O ritmo da operação é rápido e a destruição é grande. Não há como aceitarmos que as autoridades não tenham condições de impedir a ação dos madeireiros”, frisou.
Intimidação e cooptação – Clóvis Guajajara, o indígena mais citado acerca do episódio nas redes sociais, antes afirmava a existência do corpo de uma criança indígena, supostamente queimada viva por madeireiros que agem ilegalmente na região; agora ele nega e se diz ameaçado. O relatório divulgado pela Funai indica que ele recebeu doações de mantimentos e maconha, apreendidos em um caminhão que operava ilegalmente a extração de madeira. O motorista, um indígena, era reincidente e recebeu advertência verbal do órgão.
“Há quem afirme a relação entre indígenas e madeireiros. Queremos que se punam os responsáveis pela dilapidação da floresta, patrimônio do povo brasileiro. O governo brasileiro não tem cumprido seu papel de preservar e proteger estas áreas e as operações da Polícia Federal não têm surtido efeito: as informações vazam a tempo de os criminosos deixarem as áreas em tempo hábil”, afirmou Rosimeiry Diniz.
Para Pedrosa, o trabalho de Clóvis Guajajara foi desmontado por um relatório “desastrado” da Funai: “Era ele quem mais tinha contato com os Awá, ele e sua família se opõem à entrada de madeireiros na região; hoje, eles não vão mais às áreas de caça por temerem confrontos com os madeireiros”, conta. Ainda segundo o advogado, o indígena teve acesso ao relatório da Funai, revoltando-se com o mesmo.
Nunca providenciado pela Funai, um posto de fiscalização indígena na TI Araribóia é solicitado desde 2006 pela Coordenação das Organizações e Articulações dos Povos Indígenas do Maranhão (Coapima) e Comissão de Caciques Guajajaras. As entidades que concederam a coletiva na manhã de hoje recebem constantemente de indígenas denúncias de violações de direitos humanos.
CIMI/MA, OAB/MA e SMDH irão encaminhar representação às autoridades competentes – Funai, Ibama, Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal e Ministério Público Federal, entre outros – solicitando o aprofundamento das investigações acerca das situações registradas pela missão.
Mais – Veja depoimento de indígena à missão.

Técnicos da Funai dizem que assassinato é boato

Técnicos da Coordenação Regional da Fundação Nacional do Índio (Funai) de Imperatriz (MA) afirmam que a notícia de que uma criança Awá-Guajá foi queimada viva não passa de “boatos sem fundamentos”. Apesar de um relatório ter sido divulgado ontem (9) e já estar circulando na internet, a assessoria da fundação informou hoje (10) que a direção nacional da entidade ainda está analisando o assunto e não tem uma posição oficial sobre o que de fato ocorreu.

Na semana passada, o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) noticiou em seu site que, segundo líderes indígenas do povo Guajajara, o crime ocorreu em outubro de 2011 e a Funai foi informada em novembro, mas não tomou providência.

De acordo com as primeiras informações divulgadas pelo Cimi, o garoto de 8 anos pertencia a um grupo da etnia Awá-Guajá que vive na Terra Indígena Arariboia. Ainda segundo o Cimi, o corpo foi encontrado pelos Guajajara a cerca de 20 quilômetros da aldeia Patizal, próxima ao município de Arame (MA). No local também foram encontrados vestígios de um acampamento recente de madeireiros. As informações fornecidas pelo povo Guajajara, contudo, não puderam ser checadas diretamente porque os Awá-Guajá vivem isolados, impossibilitando o acesso dos missionários.

O isolamento dos Awá-Guajá também limitou o trabalho dos três técnicos da Funai enviados para apurar o caso. Em Arame, eles se limitaram a ouvir indígenas Guajajara que “pudessem oferecer informações confiáveis a respeito da circulação dos Awá-Guajá pela região”. No relatório, os técnicos afirmam que, de acordo com um dos líderes Guajajara, tudo não passou de “um boato infundado, uma mentira” e que nunca houve um corpo carbonizado.

O Cimi, no entanto, garante que o mesmo índio citado pelos técnicos, Clóvis Tenetehara, foi um dos líderes ouvidos na semana passada, quando o órgão indigenista ligado à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) apurava as informações.

Sem visitar o local onde os Guajajara dizem ter encontrado o corpo e baseando-se no relato de Clóvis, os técnicos da Funai afirmam estar indignados com a divulgação de “mentiras com requintes de crueldade”.

“Repudiamos o ato irresponsável de aproveitadores que fizeram os cidadãos brasileiros imaginarem e se comoverem com a cena hedionda descrita (imaginada) com base em boatos sem fundamentos”, dizem na nota. “É lastimável que a sociedade brasileira tenha sido ludibriada de maneira tão vil e levada a crer num fato inexistente que não pode ser sequer classificado de brincadeira de mau gosto.”

Na nota, os técnicos também revelam ter flagrado um caminhão usado para extrair ilegalmente madeira da terra indígena. De acordo com funcionários da Funai, o motorista do caminhão disse atuar com a autorização dos índios.

Procurado pela reportagem, o Cimi informou que só irá se manifestar no final da tarde. (Agência Brasil)
 
 
Fonte: Diário do Pará

Situação indígena em Arame é gravíssima: assassinato de indiozinho de 8 anos é ponta do iceberg

Um bom trabalho de jornalismo foi feito por Lissandra Leite e Rogério Tomaz Júnior, a partir da denúncia trazida a público por Alice Pires. Sinal de que há vida inteligente e comprometida com os direitos humanos no jornalismo maranhense. É a única coisa positiva dentro dessa tragédia indígena em Arame.

Cheguei a conversar com a liderança indígena Sonia Guajajara. É exatamente o que relatam os colegas. E mais: a situação está ficando habitual, de tão repetitiva na região. O extraordinário foi o fato vir a público.

Confira as informações sobre o caso:

Quarta-feira (4/01): Alice Pires, do Vias de Fato, torna público o assassinato de um indiozinho de 8 anos em Arame

E quando os Guajajaras me ligaram ontem dizendo que o índio que os madeireiros jogaram álcool e tocaram fogo e ficaram assistindo ele queimar até morrer, tinha só uns 8 aninhos de idade não consegui mais dormir....O indiozinho era da etnia Awá-Gwajá, da reserva de Araribóia, município de Arame no Maranhão.


Quinta-feira (5/01)
Rogério Tomaz Júnior, de Brasília, repercute denúncia no blogue Conexão BrasíliaMaranhão:


Sexta-feira (6/01)
Rogério Tomaz Junior, em trabalho de apuração, confirma, estarrecido, que a situação é pior do que pensava, a partir de nota do CIMI (Conselho Indigenista Missionário):

Lideranças denunciam assassinato de criança indígena Awá-Guajá na Terra Indígena Araribóia

Lideranças indígenas do povo Guajajara da aldeia Zutiwa, Terra Indígena Araribóia, no Maranhão, denunciam o assassinato de uma criança Awá-Guajá que pertencia a um grupo em situação de isolamento.
O corpo foi encontrado carbonizado em outubro do ano passado num acampamento abandonado pelos Awá isolados, a cerca de 20 quilômetrosda aldeia Patizal do povo Tenetehara, região localizada no município de Arame (MA). A Fundação Nacional do Índio (Funai) foi informada do episódio em novembro e nenhuma investigação do caso está em curso. (continue lendo aqui)


Sexta-feira (6/01)
Jornalista Lissandra Leite traz mais informações sobre o caso, em seu facebook:

Está causando revolta nas redes sociais a denúncia do assassinato de uma criança indígena, da etnia Awa-Gwajá, que teria sido queimada por madeireiros na região da terra indígena de Araribóia, no município de Arame-MA. A denúncia foi feita por índios guajajaras à jornalista Alice Pires, da OAB, e a Gilderlan Rodrigues da Silva, do Conselho Indigenista Missionário – CIMI.

Segundo Gilderlan, os guajajaras das aldeias Jititiua e Patisal, durante suas atividades de caça, já vinham travando algum contato com o grupo Awá que se encontrava acampado a cerca de 20 km da aldeia Patisal. Desde o final de setembro, entretanto, com a entrada de madeireiros na área do acampamento, surgiram relatos de conflitos e os Awá se retiraram da área. A morte do indígena teria acontecido neste período. O CIMI está buscando mais informações sobre o caso, inclusive um novo contato com o índio Clóvis Guajajara, liderança da aldeia Patisal, que teria visto o corpo e repassado a informação à organização, para fazer uma denúncia formal.

Por telefone, o chefe de posto da Funai em Amarante, Luís Carlos Guajajaras, também confirmou que vários indígenas da região estão relatando este caso, mas que ainda não pôde fazer uma visita ao local do acampamento, onde estaria o corpo carbonizado. “Como é uma região de conflitos, é bastante perigoso andar por lá”, explica. Segundo ele, os indígenas da região dizem que há restos humanos em uma coivara – fogueira feita com a madeira que será dispensada em uma ação de desmatamento –, mas não soube precisar se seriam de uma criança. Acredita-se que a morte tenha sido causada por madeireiros exatamente pela situação de conflito e pelo fato da possível vítima estar queimada em um resto de desmatamento. Mas não há confirmação das condições em que teria acontecido a morte.

Não foi possível fazer contato com nenhum indígena da região que tenha visto o corpo. Há relatos de que os guajajaras que foram até o local do acampamento chegaram a fazer um vídeo do corpo, com um celular, mas o CIMI ainda está buscando essa gravação.

Ninguém obteve relatos diretos dos Awás que pudessem esclarecer o que de fato aconteceu antes do grupo deixar o acampamento. “Pelas informações que recebemos, eles devem estar próximos à Lagoa Comprida, em Amarante, área mais protegida da ação dos madeireiros”, informa Gilderlan. O CIMI nacional deve emitir uma nota pedindo a apuração das denúncias. “O histórico de violência contra indígenas na região é grande e já foram feitas denúncias de situações diversas ao Ministério Público de Imperatriz e à Frente de Proteção Etnoambiental da Funai”, conclui Gilderlan.

No momento, ainda não há investigações conduzidas pela Polícia, pois não há uma denúncia formal. É importante ressaltar que a Funai já tem conhecimento das denúncias desde novembro, mas não realizou nenhuma visita à área para confirmar a existência do corpo.


Deputado Domingos Dutra anuncia que vai solicitar que a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados investigue o caso 

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Nota da CAI diante da violência contra os indígenas Guaranis no MS

NOTA DA COMISSÃO DE ASSUNTOS INDIGENAS-ABA SOBRE MORTES E DESAPARECIMENTOS DE INDÍGENAS EM MATO GROSSO DO SUL
Profundamente chocada com a escalada de violência que se estabeleceu no estado de Mato Grosso do Sul, tendo como alvo de maneira sistemática comunidades e pessoas Guarani Kaiowa e Guarani Ñandéva, a Comissão de Assuntos Indígenas da Associação Brasileira de Antropologia (ABA) vem a público manifestar sua preocupação com algo sem precedentes na história das relações entre os povos indígenas e a sociedade brasileira, que vê com assustadora rapidez aproximar-se uma situação que já está a ser caracterizada como genocídio.
Com efeito, o último fato, datado de 18-11-2011, teve como vítima o líder político e espiritual da comunidade de Guaiviry, que recentemente havia acampado no interior dos espaços por ela indicados como de ocupação tradicional. Segundo relatos de testemunhas, o senhor Nísio, de 59 anos de idade, morreu após ser atingido na cabeça, tórax e braços, seu corpo sendo levado em uma caminhonete, juntamente com dois adolescentes e de uma criança de cinco anos de idade. Todos seguem desaparecidos até o momento. Outras pessoas foram feridas com balas de borracha.
Chama atenção o fato de que procedimentos idênticos ou semelhantes foram utilizados em outros casos, como os seguintes:
1) Em outubro de 2009, uma comunidade Guarani-Ñandéva recém-acampado para reivindicar Ypo’i, seu território de ocupação tradicional, no município de Paranhos, foi atacado por dezenas de homens armados. Sem qualquer tentativa de diálogo, os homens espancaram violentamente os indígenas (homens mulheres, idosos e crianças) e dispararam tiros em várias direções. Para escapar das agressões, os indígenas se dispersaram. Dois professores indígenas, Genivaldo Vera e Rolindo Vera, foram arrastados pelos cabelos e levados pelos agressores. Somente dias depois do ataque o corpo de um deles foi encontrado com marcas de violência, preso a um galho de árvore, num córrego (o Ypoi), a uma distância de 30 quilômetros do lugar onde foram atacados. Do outro professor, até hoje não se tem notícias.
Neste episódio, o Ministério Público Federal em Mato Grosso do Sul denunciou seis pessoas, entre os quais políticos e fazendeiros da região. Eles são acusados por homicídio qualificado – sem possibilidade de defesa da vítima -, ocultação dos cadáveres, disparo de arma de fogo e lesão corporal contra idoso. Foram denunciados Fermino Aurélio Escobar Filho, Rui Evaldo Nunes Escobar e Evaldo Luís Nunes Escobar – filhos do proprietário da Fazenda São Luís -, Moacir João Macedo – vereador e presidente do Sindicato Rural de Paranhos-, Antônio Pereira – comerciante da região, e Joanelse Tavares Pinheiro – ex-candidato a prefeito de Paranhos (vide link http://www.prms.mpf.gov.br/servicos/sala-de-imprensa/noticias/2011/11).
Não é só morosidade do inquérito. O Ministério Público Federal precisou solicitar que o caso não fosse arquivado, contrariando a conclusão feita pela Polícia Federal. O procurador da República Thiago dos Santos Luz observou que “é intrigante constatar que pelo menos seis indígenas, as únicas testemunhas oculares dos fatos, em depoimentos detalhados, verossímeis e harmônicos, prestados logo após os crimes, tenham expressamente nominado e reconhecido três indivíduos que participaram direta e pessoalmente do violento ataque a Ypo´i e nenhuma delas tenha sido sequer indiciada pela autoridade policial, que concluiu o caso sugerindo o arquivamento.” (idem).
2) Em dezembro de 2009, foi atacado uma comunidade Guarani-Kaiowa recém-acampado nas margens de uma estrada de chão no município de Iguatemi para reivindicar Mbarakay, seu território de ocupação tradicional. As pessoas viram chegar em vários veículos mais de uma dezena de homens encapuzados, buscando por Adélio Rodrigues, o líder político da comunidade. Gritando pelo  “o cabeludo”, os encapuzados batiam e maltratavam as pessoas, puxando-lhes os cabelos. O xamã Atanásio Teixeira, de 70 anos de idade, uma filha e um neto, entre várias outras pessoas, foram duramente espancados e feridos com balas de borracha. O líder político não foi encontrado apenas porque havia se afastado um pouco antes dos invasores chegarem. Já um filho seu, Arcelino Oliveira Teixeira, de 18 anos de idade, foi levado pelo agressores e dele não se teve mais notícias até hoje.
Sobre este episódio, no site da PR em MS, consta que “o Ministério Público Federal (MPF) em Dourados pediu abertura de inquérito na Polícia Federal em Naviraí para investigar o crime. Foram encontrados dezenas de cartuchos de munição calibre 12 anti-tumulto (“balas de borracha”) e há indício de formação de milícia armada. O MPF trata o caso como genocídio, já que foi cometida violência motivada por questões étnicas contra uma coletividade indígena.” Ainda no site consta que “nas fotos feitas é possível ver as marcas do ataque ao acampamento indígena, como barracos, pertences e alimentos queimados.” (vide http://www.prms.mpf.gov.br/servicos/sala-de-imprensa/noticias/2011/09/).
3) Já em agosto de 2011, em nova tentativa de retornar ao território reivindicado, os grupos de Mbarakay e da comunidade vizinha de Pyelito sofreram diversos ataques semelhantes, com uso de balas de borracha, várias pessoas ficando feridas.
Para além de outros casos – cuja caracterização consta em importante relatório, elaborado pela Dra. Adriana de Oliveira Rocha, Procuradora Federal (MS) a pedido da ABA e colocado em anexo, nestes aqui referidos revelam-se procedimentos surpreendentemente semelhantes. São ações próprias ao que constitui o crime organizado, perpetrado, como se percebe, por grupos paramilitares, que inclusive se utilizam das  chamadas “balas de borracha”, de uso exclusivo de forças policiais.
Uma notícia postada no site do Centro de Mídia Independente no dia 21-11, as 18h04min. diz:
“A empresa de segurança Privada Sepriva, que foi contratada pelos fazendeiros da região de Dourados para exterminar os Guarani Kaiowás, tem uma lista das lideranças Guarani Kaiowá para matar imediatamente e são eles: Cacique Ládio, Vereador Otoniel, Cacique Ambrosio, Cacique Carlitos, sendo que a pior situação é do Cacique Ládio, que está sendo caçado nesse exato momento, pelo fazendeiro Jacinto Honorio da Silva, que matou o Cacique Marcos Veron (…)A policia federal, mandou 3 policiais para enfrentar 50 jagunços da Sepriva e voltaram correndo”.
Tal estado de coisas demanda uma investigação circunstanciada e ações  enérgicas das autoridades!
A não apuração dos responsáveis pelos crimes praticados contra os indígenas Guaranis não pode coexistir com o reconhecimento dos seus direitos constitucionais, do seu direito à vida e à proteção de sua continuidade étnica e cultural. Como se constata, no que resguarda aos indígenas  Mato Grosso do Sul vem a caracterizar-se  como algo inteiramente à margem de um verdadeiro estado democrático de direito. Cabe ao Estado Nacional brasileiro fazer-se presente de modo mais eficaz, atuando para identificar, aplicar as sanções e coibir práticas, que se configuram, ao fim e ao cabo, como uma situação de verdadeiro genocídio.
No Brasil a Lei 2.889, de 01-10-1956, define em seu artigo primeiro como crime de genocídio “quem, com a intenção de destruir, no todo ou em parte, grupo nacional, étnico, racial ou religioso, como tal”. Ali são estabelecidas cinco clausulas para a concretização deste delito, das quais as três primeiras colocamos a seguir” a) Matar membros do grupo; b) Causar lesão grave à integridade física ou mental de membros do grupo; c) Submeter intencionalmente o grupo a condições de existência capazes de ocasionar-lhe a destruição física total ou parcial”.
Efetivamente, não se trata aqui apenas de morte ou desaparecimento de pessoas (de modo individual), mas de uma gravíssima situação de tensão social, que torna o medo do extermínio físico, das torturas e das humilhações um componente cotidiano da existência destas comunidades Guarani- Kayowá e Guarani-Ñandeva, em flagrante violação de direitos prescritos pela Constituição aos indígenas e pelas convenções internacionais das quais o Brasil é signatário.
Até o momento, as iniciativas de punir os responsáveis por essas ações de assassinato e tortura têm, de um modo geral, se demonstrado totalmente ineficazes, alimentando a crença na mais completa impunidade dos seus executores e mandantes, contribuindo para que os se julgam prejudicados pelos indígenas optem por investir não em soluções de negociação, mas na confrontação aberta e no uso explícito e reiterado da força.
Tal quadro tem levado os indígenas à condição de mais completa penúria, sobrevivendo em condições subumanas de privação, acossados pelo terror e pelo desespero. Apesar disto persistem em sua disposição de recuperar suas terras de ocupação tradicional, movidos pela expectativa de cumprimento pela sociedade brasileira dos mais elementares princípios de justiça. A sua resistência é pacífica, consubstanciada através de ações não violentas, que envolvem totalmente famílias e comunidades, e estão totalmente articuladas  com seu sistema cosmológico e suas práticas religiosas.
Deve-se ressaltar ainda que, com as características de sistematicidade aqui descritas, esses fatos tiveram início em decorrência de uma iniciativa do Estado Brasileiro de justamente fazer cumprir sua responsabilidade exclusiva, realizando o previsto no artigo 231 da Constituição Federal brasileira, com o reconhecimento das terras de ocupação tradicional destas coletividades. A implementação, pela FUNAI, de seis grupos técnicos (GTs) de identificação e delimitação de terras, resultou de um Termo de Ajustamento de Conduta celebrado em 2007 entre a FUNAI e o Ministério Público Federal de Dourados (Mato Grosso do Sul). A divulgação deste TAC foi recebida com grande hostilidade por parte de segmentos locais, configurando-se um forte e complexa rede de ações e atores comprometidos com a firme intenção  de obstruir a  sua realização.
Um primeiro movimento nesta direção foi configurado por dezenas de recursos interpostos judicialmente contra os Grupos de Trabalho organizados pela FUNAI, fundamentalmente por iniciativa da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado do Mato Grosso do Sul (Famasul). “Desde 10 de julho de 2008, quando a FUNAI publicou as portarias [de números 788, 789, 790, 791, 792 e 793], comunicando a decisão de vistoriar áreas de produtores rurais da região Sul do Estado, a FAMASUL tem articulado ações políticas e judiciais a favor do desenvolvimento econômico de Mato Grosso do Sul.”(vide site http://www.pensenissosociedade.com.br).
Além de ações pulverizadas de seus federados, a Famasul moveu duas principais ações: uma no sentido da suspensão mesma dos processos demarcatórios e outra no sentido de obrigar a FUNAI a notificar previamente todos os proprietários rurais que estivessem no raio de ação dos trabalhos destes 6 GTs, sem o que os estudos não poderiam ser realizados. “Em 11 de agosto de 2008, os produtores tiveram a garantia de que a Funai, obrigatoriamente, irá notifica-los sobre as propriedades rurais que seriam vistoriadas, os produtores garantiram a obrigatoriedade da FUNAI em comunicar previamente quais as propriedades rurais seriam vistoriadas. De lá para cá, foram movidas 32 ações em prol da garantia do direito de propriedade na região sul do Estado.”
Já em outro site (http://www.paznocampo.org.br/Blog/popposts.asp?id=293), lemos: “A Famasul que tentava desde novembro de 2008 recursos para a suspensão dos processos demarcatórios teve em primeira instância o pedido negado. A instituição apelou para o TRF e a decisão de suspender as vistorias foi proferida no dia 22 de julho de 2009“. Mais adiante,  em agosto de 2010 o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Cezar Peluzo, cassou três liminares favoráveis à Famasul, que visavam a notificação prévia aos produtores rurais. Na decisão, o ministro afirmou que o decreto 1.775, de 1996, que regulamenta a demarcação de terras indígenas, não prevê a notificação dos proprietários. Um dos argumentos era a dificuldade que a Funai teria para realizar os estudos caso tivesse que notificar previamente todos os ocupantes e posseiros das propriedades rurais espalhadas por 26 municípios de Mato Grosso do Sul.
Um segundo movimento interposto foi o do próprio governador do estado, André Puccinelli, ao  manifestar-se publicamente e em reiteradas oportunidades contra o trabalho dos GTs. A  pretexto de tornar mais transparentes tais atividades, o governador  pressionou  a FUNAI para a inclusão de técnicos de agências estaduais, frequentemente identificados com interesses contrários aos indígenas, como componentes dos Grupos Técnicos, dificultando assim o exercício  da pesquisa antropológica e de uma interlocução mais adequada com os indígenas
Tal fato, que gerou forte oposição dos antropólogos coordenadores dos GTs, por considerá-lo clara interferência nos procedimentos regulares, contou com a anuência do órgão indigenista. O que não impediu que o governador continuasse atuando plenamente contra tais GTs, chegando a propor um fundo (estadual) para a contratação de antropólogos que dessem suporte aos proprietários rurais no acompanhamento dos trabalhos.
Além de nociva aos trabalhos do GT, tal providência se configura como desnecessária. Os procedimentos de identificação de terras indígenas são normatizadas pelo decreto 1775/96, que prevê a publicização do processo administrativo (os relatórios tem seu extrato transcrito no DOU). Segue-se a isto a abertura de um período para o exercício do contraditório, durante o qual as partes que se julguem lesadas, assim como seus representantes e advogados, tenham pleno acesso a todas as peças do processo administrativo, bem como a manifestar-se da forma que desejar, seja com a juntada de documentos, provas e argumentações que considerem necessárias à comprovaçãso de seus pontos de vista. A equipe técnica da FUNAI está obrigado a responder adequadamente a todos os pontos levantados, só então submetendo todo este material à consideração do Ministro da Justiça.
Um terceiro movimento foi buscar intimidar os antropólogos, com pessoas armadas que em veículos não  identificados  perseguiam e ameaçavam os carros  utilizados nos trabalhos dos GTs. Disto, houve registro em diversos boletins de ocorrência policial. No dia 03/08/2008 os antropólogos Paulo Delgado e Ruth Silva, que viajavam em viatura da FUNAI e com motorista do órgão, deram queixa ao Departamento de Operações de Fronteiras (DOF) por terem sido perseguidos por longo tempo na estrada MS-295 por um carro que chegou a desenvolver 160 km por hora.  Mais tarde detido o veículo e identificados seus ocupantes (que eram empregados de uma fazenda próxima) foram apreendidas câmeras fotográficas e celulares com dispositivo para fotos.  mas liberados os acusados. A partir de então a passagem por fazendas durante a realização dos estudos antropológicos somente ocorria com a presença da Policia Federal.
Um quarto movimento foi o de deflagrar através da imprensa (com destaque para os jornais “O Progresso” e “A Gazeta”,de Amambai) uma verdadeira campanha anti-indígena, publicando  constantemente editoriais e matérias, preconceituosas,  insuflando atitudes racistas e divulgando  informações enganosas e alarmistas a respeito dos GTs  e dos possíveis resultados de seus trabalhos.  As violências praticadas contra os indígenas são inteiramente escamoteadas, enquanto as vitimas são criminalizadas.
As agressões armadas contra as comunidades Guaranis, acompanhada da morte de lideres que assinaram o TAC-2007, do seqüestro de jovens e da pratica da tortura constitui o quinto movimento, o elo final desta escalada de ações que visam implantar o terror entre os indígenas e demove-los de qualquer pleito quanto ao reconhecimento de seus direitos. Fala-se hoje em cerca de 25 acampamentos de grupos de famílias extensas  Guaranis localizados em beiras de estradas ou ameaçadas de despejo em pequenos trechos de fazendas.
As famílias indígenas interpretam o atual estado de indigência em que se encontram como consequência da impossibilidade de restabelecerem seus vínculos com os espaços territoriais dos quais são originárias e que lhes foram concedidos no passado por personagens de sua cosmologia. Só em suas áreas de ocupação tradicional, carregada de sua historia e de sua cultura, e que elas poderão reencontrar o seu equilíbrio e desenvolver adequadamente o seu modo de bem viver.
Os indígenas não querem  apossar-se de bens ou propriedades dos brancos, nem muito menos poderiam pretender – como agricultores dedicados que são – obstaculizar o desenvolvimento de Mato Grosso. Segundo o seu modo de pensar e de agir estão apenas buscando pacificamente o reconhecimento de suas terras tradicionais, nas quais possam manter uma vida digna e adequada aos seus padrões  socioculturais.
Não praticam jamais retaliações nem represálias, todas suas ações de resistência são inteiramente pacificas e incluem toda a comunidade. Os lideres espirituais, articulados com intelectuais e estudantes indígenas no Ati_Guacu, reivindicam assim o direito de ir aos acampamentos atacados para praticar rituais, dar conforto aos vivos e acalmar os espíritos.
Perante este gravíssimo quadro de ameaças as comunidades Guaranis de MS, o Estado Brasileiro precisa urgentemente recobrar o controle da situação, adotando as seguintes providências:
  • apurar rigorosamente as responsabilidades sobre todos os atos de violência realizadas contra pessoas e coletividades indígenas  Guarani em MS, indiciando a todos os culpados, encerrando de uma vez por todas com o ciclo de impunidade, que só estimula o agravamento do conflito;
  • fornecer proteção especial aos lideres Guarani ameaçados, integrando-os no programa de proteção aos defensores dos direitos humanos, desenvolvida pela Secretaria Especial de Direitos Humanos. Isto diz respeito em especial aos coordenadores do Ati Guacu  (Tonico, Otoniel e Eliseo),  bem como aos lideres que subscreveram o TAC-2007;
  • assegurar a assistência regular as famílias localizadas nos acampamentos, permitindo a prestação indispensável de serviços médico-sanitários, educacionais e  de promoção sócio-econômicas.  Para isto as equipes oficiais devem contar com o presença e apoio permanente da Policia Federal e da Força Nacional;
  • as visitas de solidariedade dos integrantes do Ati Guaçu às famílias acampadas e ameaçadas devem contar com  esquema de proteção idêntico  ao das atividades assistenciais elencadas no item anterior;
  • conclusão dos trabalhos dos GTs, com a formação de processos administrativos que possam atender  aos reclamos das famílias Guaranis por suas áreas de ocupação tradicional, o que exige o término não só dos relatórios antropológicos, mas também dos levantamentos fundiários e dos calculo de benfeitorias indenizáveis, a confecção dos memoriais descritivos e a publicação dos resumos no DOU;
  • aproveitar os estudos realizados pelos GTs como subsídios importantes (entre outros) para a definição de uma política do Estado Brasileiro junto ao povo Guarani, na qual sejam estabelecidos procedimentos justos e eficientes de reparação dos impactos negativos por eles sofridos nos últimos anos ,  bem como pensar em mecanismos que possam contribuam para uma futura  convivência interétnica harmônica e respeitosa das diferenças.
Brasília, 06 de dezembro de 2011.
João Pacheco de Oliveira
Coordenador da Comissão de Assuntos Indígenas
http://www.abant.org.br/news/show/id/194
Enviada por Ricardo Álvares.

CPT divulga dados parciais dos Conflitos no Campo Brasil de janeiro a setembro de 2011

Comissão Pastoral da Terra divulga dados parciais de conflitos no campo no Brasil, no período de janeiro a setembro de 2011. Confira os dados e as análise da CPT:
Os dados são parciais
1º – porque são os que chegaram ao conhecimento do setor de documentação da CPT neste período. Existem inúmeros casos de conflitos e de violências contra os trabalhadores do campo que não chegam ao conhecimento, nem dos agentes da CPT, nem dos veículos de comunicação.
2º – São parciais, também, porque ainda não chegaram ao Setor de Documentação os dados de alguns regionais da CPT, que os repassam nas vésperas da divulgação do relatório anual.
3º – São parciais, ainda, porque em alguns casos, por exemplo, de assassinato, não estão ainda claros os motivos do crime e se aguardam novas informações. Enquanto isso o caso não é incluído no Banco de Dados da CPT.
Violência renitente
Os números relativos a janeiro a setembro de 2011, indicam uma redução geral de conflitos – redução de 777, em 2010, para 686, em 2011, -12%. Mas a queda não esconde que a violência se mantém e firme. Faz parte da estrutura agrária do país. Este número refere-se ao conjunto de conflitos que a CPT registra: por terra, por água e trabalhistas, no campo.
Individualizando cada categoria de conflito, os conflitos por terra se reduziram de 535, em 2010, para 439, em 2011. Os conflitos por água de 65, em 2010, declinaram para 29, em 2011. Já os conflitos trabalhistas, concretamente o trabalho escravo apresentou elevação. Em 2010, neste período, foram registradas 177 denúncias de trabalho escravo, em 2011 este número se elevou para 218.
Assassinatos ganharam repercussão
Os assassinatos de trabalhadores, no período de janeiro a setembro de 2011, somam 17, 32% a menos que os assassinatos em igual período de 2010, 25. Como sempre a região Norte lidera, com 12 trabalhadores mortos, 9 só no Pará.
Até novembro o número de assassinatos registrados, em 2011, soma 23, enquanto que em 2010 haviam sido 30.
Mesmo com número menor de mortes, a repercussão dos assassinatos neste ano foi muito maior. Dois motivos principais podem explicar esta repercussão:
1º – Diversas destas lideranças estavam empenhadas na luta pela defesa das florestas e do meio ambiente.
2º – O primeiro assassinato que teve maior repercussão, o do casal Maria do Espírito Santo e seu esposo José Claudio Ribeiro da Silva, no Pará, ter acontecido no mesmo dia em que era aprovado na Câmara dos Deputados, o novo Código Florestal. A eles se seguiram o de Adelino Ramos, em Rondônia, um dos sobreviventes do massacre de Corumbiara.  E o terceiro, já no final do ano, no Mato Grosso do Sul, do Cacique Nísio Gomes.
Pelo menos 8 das mortes  estão diretamente relacionadas com a defesa do meio ambiente. Outras 4 se relacionam com comunidades originárias ou tradicionais: 2 mortes são de  quilombolas e 2 de indígenas.
Ameaças de morte se concretizam
Um dado que apresenta um crescimento elevado é o de pessoas ameaçadas de morte. Em 2010, houve o registro de 83 pessoas ameaçadas, já em 2011, este número se elevou para 172, 107% a mais. Esse crescimento exponencial é reflexo das ações que se desenvolveram, após os assassinatos de maio.  Nesta ocasião a CPT apresentou à Secretaria de Direitos Humanos do governo Federal, a relação dos ameaçados de morte nos últimos dez anos, destacando que as ameaças haviam se concretizado efetivamente em 42 casos. Esta informação é que foi veiculada com insistência. A partir daí afloraram notícias de muitas ameaças, que de tão corriqueiras, eram encaradas por muitos como normais. Com um levantamento mais acurado chegou-se ao número de 172. É de se considerar que este registro refere-se a ameaças ocorridas em 2011, não a ameaças de anos anteriores.
Mas importa destacar que das 23 pessoas assassinadas até novembro de 2011, 9,39% já haviam recebido ameaças, ou em anos anteriores, ou neste mesmo ano. A maioria havia registrado ocorrência na polícia.
Pistolagem avança
A intervenção federal depois dos primeiros assassinatos não foi minimamente suficiente para inibir a ação dos grileiros, proprietários de terra e outros. Isso salta aos olhos ao se observar o número de pessoas vivendo sob a pressão dos pistoleiros.  Este número cresceu de 38.555 pessoas, em 2010, para 45.595, em 2011. Um aumento de 18,2%.
Conflitos por terra
Os conflitos por terra referem-se à soma das ocupações, dos acampamentos e demais conflitos. Neste particular é de se destacar que, mesmo tendo havido redução no número de conflitos de 535 para 439, o número de pessoas envolvidas, em 2011, foi maior 245.420, uma média de 559 pessoas por conflito; contra 234.150, em 2010, média de 437 pessoas por conflito.
O mesmo acontece ao se analisar em particular as ocupações. Média de 623 pessoas por ocupação, em 2011, 464 em 2010.
O número de acampamentos sofreu redução tanto no número de ocorrências quanto no de pessoas por acampamento.
Vale ressaltar que os dados de acampamentos e ocupações se referem às novas ações ocorridas no ano, não é um dado geral de quantas famílias estão em ocupações ou acampadas no país, mas sim de quantas novas famílias entraram nessa situação nesse ano.
Conflitos por água
Em relação aos conflitos por água, os registros indicam uma significativa diminuição no número de conflitos, de 65 em 2010, para 29 em 2011. Também nos conflitos por água, a média de pessoas envolvidas, em 2011, 3.217, é maior do que em 2010, 2.464.
Trabalho Escravo em crescimento
O que mais chama a atenção no período de janeiro a setembro é o trabalho escravo, que apresentou significativo crescimento no número de ocorrências. Foram registradas 177 denúncias em 2010, envolvendo 3.854 pessoas e no mesmo período em 2011 as ocorrências chegaram a 218, envolvendo 3.882 pessoas, 23% a mais no número de ocorrências.  Merece também atenção o fato de as ocorrências de trabalho escravo terem aumentado em todas as regiões do país, menos no Norte, que mesmo assim continua com o número mais elevado, como se pode observar pela tabela abaixo:
É de se destacar que a região Centro-Oeste concentrou o maior número de trabalhadores submetidos a condições de trabalho escravo, quase 50%, 1.914, do total de 3.882. O Mato Grosso do Sul foi o estado que apresentou o número mais elevado, 1.322, 34% do total de pessoas envolvidas. Goiás vem em segundo lugar no número de trabalhadores escravizados, 483, só depois é que vem o Pará com 380. Proporcionalmente, porém, o Nordeste é que apresentou crescimento mais destacado, passou de 19 para 35 ocorrências, um crescimento de 84%.
Considerações
Todos os indicadores apontam para a pouca ou nenhuma importância que os camponeses e camponesas e a agricultura familiar, tem no cenário nacional. A Reforma Agrária há anos sumiu do campo das prioridades do governo federal. É só observar o número de famílias assentadas no último ano. Pouco mais de 6.000. As reivindicações dos sem terra, não são levadas em conta. A diminuição do número de ocupações e acampamentos encontra aí sua explicação maior. Os acampados continuam à beira das estradas, ou nas proximidades das fazendas pretendidas, alguns há 5, 6, 8 anos ou mais.
O presidente Lula, em 2006, falava dos entraves para o desenvolvimento brasileiro. E citava as questões ambientais, os povos indígenas e as comunidades tradicionais, como os principais entraves. Na realidade estes continuam a ser os entraves que precisam ser removidos.  E de fato estão sendo. 12 dos 23 assassinatos até novembro estão relacionados a defensores do meio ambiente, ou são índios ou quilombolas.
O aumento significativo do número de ameaçados de morte, e das famílias que vivem sob a mira de pistoleiros, mostra que os latifundiários, madeireiros e ruralistas pouco ou nenhuma importância dão ao Estado brasileiro. O que vale é sua lei. Dois fatos mais recentes deixam claro isso que afirmamos. Em Itaituba, no Pará, foi assassinado João Chupel Primo, em 22/10. Ele denunciava a retirada ilegal de madeira, o que rendeu uma fiscalização do ICMBIO e da polícia, com participação do Exército. Nestas ações um soldado do exército trocou tiros com os criminosos e acabou perdido durante cinco dias na floresta. Depois disto, o exército se retirou da área por falta de segurança! No Mato Grosso do Sul depois do assassinato do cacique Nísio Gomes, os fazendeiros abordaram uma comitiva federal liderada por um alto funcionário da Secretaria Geral da Presidência da República, exigindo que se identificassem. Como nas favelas das grandes cidades, o crime organizado impõe sua lei, no campo grileiros, madeireiros e fazendeiros fazem valer o que querem e encurralam o próprio Estado que não dá respostas à altura.
http://www.ecodebate.com.br/2011/12/13/cpt-divulga-dados-parciais-dos-conflitos-no-campo-brasil-de-janeiro-a-setembro-de-2011/